RAGO, Elisabeth. "Amor, sexo e anarquia" [Espanha, 1936]

MALATESTA, Errico (1853-1932)Guerra na Espanha (1936-1939) Sexualidade MONTSENY, Federica (Madrid, 1905-Toulouse, 1994). Militante anarchiste espagnoleControle dos nacimentos MARTÍ IBÁÑEZ, Felix (Dr.)LACERDA DE MOURA, MariaRAGO, Margareth

Letralivre, n° 33, ano 06 - 2002.

"Es que no es digna la satisfacción de los instintos sexuales?":

Em janeiro de 1936, a revista anarquista Estudios, publicada

mensalmente em Valência, na Espanha, inclui entre os inúmeros artigos

que discutem questões de saúde e da moral, uma seção

denominada "Consultório Psicossexual", aberta aos leitores. Através

de cartas dirigidas ao Dr. Felix Martí Ibáñez, especialista em

Sexologia, são apresentadas problemas sexuais, sentimentais e afetivo

de várias ordens, aos quais o médico procura responder, tentando

identificá-los a partir de sua especialidade.

O diálogo aberto entre o médico libertário e os seus leitores na

revista é das muitas frentes em que ele se engaja, ao pôr em prática

aquilo que considera sua tarefa principal: a reforma eugênica sexual,

na Espanha revolucionária. Segundo ele e seus companheiros

libertários, muitos dos quais também médicos, tratava-se de tirar do

país o atraso secular em que se encontrava, criando as condições para

a transformação dos hábitos da população, para a formação de uma

juventude aberta para a vida, livre dos preconceitos e das repressões

impostas pelo conservadorismo burguês e pelo obscurantismo religioso.

Focalizo os principais temas que emergem nas trocas e diálogos

ocorridos neste espaço da revista, assim como no conjunto dos artigos

aí publicados, entendendo que, ao abordar questões referentes à

sexualidade, ao corpo e à moralidade, eles revelam a preocupação dos

anarquistas em construir uma nova moral sexual e em transformar as

relações de gênero no sentido da emancipação sexual tanto da mulher,

quanto do homem. Para além de suas interpretações acerca dos

problemas sexuais e amorosos, os libertários expõem suas práticas e

experiências nessa área, constituídas num período, bastante denso de

nossa história, isto é, durante o período da Revolução Espanhola.

Temos tido vários registros dos acontecimentos políticos, econômicos

e sociais do período, já que se trata de um dos momentos mais

interessantes do século 20, em se considerando as criações

revolucionárias em múltiplos campos da vida humana, como as

coletivizações das fábricas e dos campos e as inovações libertárias

na educação e na área da saúde, em várias regiões da Espanha, entre

1936-1939.

Mais recentemente, alguns trabalhos ligados à área de estudos

feministas, focalizam a experiência das mulheres revolucionárias, sua

participação na esfera pública e as questões da moralidade para os

anarquistas, durante o processo revolucionário. Martha Ackeslberg -

Free Womem of Spain de 1991 (Indiana University Press) e Mary Nash

Defying Male Civilization: Womem in the Spanish Civil War,

publicado em 1995 (Ardem Press) analisam a atuação das mulheres

libertárias durante a Guerra Civil Espanhola, procurando perceber em

que medida sua presença na esfera pública alterou de fato a dominação

masculina, ou abalou os conceitos e valores tradicionais a respeito

da divisão sexual dos papéis na sociedade. Mesmo que concluam pelo

fracasso das propostas libertárias, esses livros mostram a grande

desestabilização causada pela atuação dos anarquistas naquele período

de profunda esperança, em que se anunciava a possibilidade de

reorganização da sociedade em bases mais solidárias e criativas.

O objetivo maior deste trabalho é destacar o projeto libertário de

construção de uma nova moral sexual, as formas de problematização dos

temas apresentados e as respostas sugeridas, resgatando um debate

histórico e experiências inovadoras que, como é de se supor,

encontraram profundas dificuldades para serem implementadas, numa

Espanha profundamente conservadora e religiosa. Ao mesmo tempo, os

problemas levantados mostram a permanência não apenas das imagens e

metáforas a partir das quais se constrói a experiência sexual, mas

ainda a reincidência das dificuldades nesta área, encobertas por um

profundo silêncio que apenas começa a ser quebrado em nosso tempo.

A reforma moral dos libertários

A Revolução Espanhola (1936-39) foi o momento privilegiado para que

os anarquistas pusessem em prática várias de suas concepções a

respeito da construção de novas formas de vida social. Certamente,

desde sempre, eles procuraram implementar suas propostas de

organização social, questionando o poder em todas as dimensões da

vida em sociedade, defendendo a autogestão nas fábricas e no campo,

construindo as "escolas modernas", praticando o amor livre, recusando

o casamento civil e religioso, recusando a representação política, em

nome da autonomia pessoal. As discussões em torno do amor e da

sexualidade ganharam um maior espaço entre suas preocupações, já que

seriam fundamentais para a construção de uma nova moral e de um novo

homem, livre de preconceitos, dos tabus, das crenças obsoletas e das

repressões sexuais.

Vários temas compõem o repertório das discussões que a revista

apresenta mensalmente, entre 1934-36. "Nova Moral Sexual", "A

Educação Sexual. A Puberdade", "O Instinto Sexual", "A Mulher e a

Nova Moral", "O Pudor na Bíblia", "Prostitutas!", "Juventude e

Liberdade", "O Culto Fálico na Roma Antiga", "Em torno ao problema

eugênico no Aborto", "Uma Utopia Sexual" são alguns dos sugestivos

títulos dos artigos publicados, na grande maioria assinados por

homens e por médicos. Uma das poucas escritoras da revista, aliás, é

a libertária brasileira Maria Lacerda de Moura, já bastante conhecida

em nossos meios.

Esses textos apontam para a construção da sociedade libertária, onde

novas formas de amar, de viver a sexualidade, de se relacionar com o

corpo, de conhecer o mundo e respeitar o próximo seriam possíveis.

Para tanto seria necessário criar condições de esclarecimento sexual

da população, através de cursos e programas de educação sexual, assim

como da implantação de postos, estabelecimentos e outras instituições

de atendimento prático.

Amor livre e plural, divórcio, maternidade consciente, aborto, fim da

prostituição e criação de estabelecimentos de higiene para fins

sexuais são algumas das propostas apresentadas pelos anarquistas,

nessa direção.

Sugiro acompanhar por um momento alguns dos temas que emergem nas

trocas de correspondência entre o Dr. Ibáñez e seus leitores, em

geral, homens e mulheres de várias idades pertencentes ao mundo do

trabalho e identificados ao anarquismo. A seção é aberta às cartas

dos leitores em janeiro de 1936, afirmando-se como um espaço para

consulta de problemas íntimos psicossexuais com o Dr. Ibáñez. A

leitura das cartas enviadas ao longo do ano revela uma forte

preocupação com o comportamento sexual das mulheres, seja na

perspectiva dos companheiros e esposos que as escrevem, seja na das

próprias mulheres. Contudo, isso não significa que os únicos temas

abordados refiram-se à mulher, numa atividade explícita de indicar

aos homens o caminho para introduzi-la à vida sexual, ou em outras

palavras, para ensiná-la a ajustar-se às necessidades masculinas,

como vemos nos manuais de "higiene do amor", publicados em vários

países, no período. Trata-se de uma tentativa de promover a interação

entre os casais, ou então, de ajudar o indivíduo a encontrar-se e

resolver suas dificuldades a partir de conhecimentos bastante

especializados na área da psicanálise e da sexologia, de Freud e de

Havellock Ellis.

Como afirma o Dr. Ibáñez, o consultório é uma espécie de santuário

que visa trazer alívio não mais às "dores espirituais", mas às "dores

sexuais".

Um dos temas mais freqüentes trazidos nas cartas refere-se à questão

da incapacidade de amar das mulheres, ou da frigidez feminina. Assim,

a primeira carta apresentada é escrita por um homem de 42 anos,

casado há oito com uma mulher cinco anos mais jovem, lamentando seu

fracasso em faze-lo conseguir "o êxtase amoroso no ato sexual",

dificuldade que se acentua após o nascimento do segundo filho.

As respostas do médico mostram as concepções médicas sobre o corpo e

as sexualidade da mulher, no período. Destinam-se a trabalhadores(as)

identificados com o anarquismo, o que se deduz pela maneira de

apresentação dos leitores como "companheiros"; aliás, o próprio

médico se coloca como um anarquista revolucionário comprometido com a

Revolução em curso. Discutindo o problema da frigidez feminina, o Dr.

Ibáñez entende que há as causas endógenas e as exógenas. Estas

remetem às dificuldades masculinas, como ejaculação precoce, ou

impotência sexual relativa, ou ainda o uso de uma técnica sexual

inadequada, que levaria à insatisfação sexual da mulher. Aconselha o

doutor:

"Examine objetivamente sua própria sexualidade, não apenas em sua

constituição, mas em sua técnica",

já que, "uma preparação amatória curta da mulher origina nela uma

sobrecarga em sua sensibilidade", que não sendo satisfatória resulta

numa grande frustração. Entre as causas endógenas da frigidez

feminina, destaca as alterações endócrinas e sugere a consulta a um

especialista. Aí afirma que esta frigidez depois do segundo filho é

muito comum nas mulheres e tenta explicar:

"a influência anestésica sobre a erótica feminina do nascimento do

filho" pelo traumatismo do parto; enquanto defesa psíquica pelo medo da gravidez; pelo deslocamento do potencial efetivo da mãe para o filho.

Em outra carta revelando a mesma dificuldade em relação ao orgasmo

feminino, o médico sugere que o homem considere o psiquismo feminino.

As fantasias criadas desde a adolescência em relação ao ato sexual e

ao parceiro provocam um choque no embate com a realidade; portanto ,

propõe a reversão do quadro apresentado com a ajuda de um psicólogo

para que a mulher reverta "as imagens eróticas indesejáveis e as substitua pelas normais, na construção de uma sensibilidade amorosa normal".

Esboçando um histórico da "evolução erótica da mulher", recorta três

momentos fundamentais: uma fase de auto-erotismo, em que a menina se

ama e em que passa muitas horas se adorando no espelho, ou mimando a

boneca em que se projeta a si mesma, numa atitude totalmente

narcisista. A segunda fase, a da "projeção parental da sexualidade",

marcada pelos complexos de Édipo e de Eletra, é um momento

heteroerótico, em que a jovem passa a se apaixonar também pelos

outros. Já a terceira fase, a da "especificidade erótica", o objeto

de desejo desloca-se para homens específicos. Finalmente, a mulher

chega ao casamento e aí emergem os problemas.

É interessante observar a preocupação feminista do médico que, ao

contrário do pensamento médico conservador do período, entende que a

mulher deve ter direito ao prazer sexual, tema recorrente na

literatura anarquista desde o século anterior. Por isso, prega ele

aos seus leitores do sexo masculino:

"Se queremos ser homens livres, temos de desejar a liberdade sexual

para a mulher em suas experiências amorosas; se desejamos ser

revolucionários temos de começar por revolucionar nosso espírito

dominando nossos egoísmos." ("Lãs que no Saben Amar y las que no

Puedem Amar", fev. 1936, n° 150).

Outro tema de discussão remete à menopausa. Respondendo ao leitor

aflito diante da ausência de orgasmo da esposa e diante de sua

entrada na menopausa aos 40 anos, o Dr. Ibáñez informa que assim

"como sucede com sua esposa, não é um fato infrequente em nosso país."

A menopausa é identificada pelo médico como "o ocaso da sexualidade

feminina", momento em que a mulher deixa de ter desejo e capacidade

sexuais, que no homem não terão data marcada para acabar. A

menopausa, isto é, o momento em que a mulher deixa de ter condições

de engravidar, é confundida com um período em que morre para a vida

sexual, no imaginário médico do período.

Analisando cautelosamente o caso exposto na carta pelo marido

angustiado, o médico observa que com um "horizonte sexual" tão

triste, pois ela teve cinco partos e nenhum "êxtase" em sua

experiência sexual, ela só poderia querer encurtar o "indesejável

caminho erótico", e chegar ao "crepúsculo final de uma sexualidade

dolorida e insatisfeita". Daí a menopausa precoce.

Também dos problemas sexuais masculinos se ocupa o médico anarquista,

a exemplo da impotência. De um lado, critica o esposo que, num

segundo casamento, como diz em carta, só consegue ter prazer ao

projetar a imagem da primeira esposa, já falecida, sobre a segunda,

durante a cópula. A este comportamento denomina de "adultério

espiritual" e recomenda uma maior concentração nas qualidades da

esposa atual para um desempenho mais positivo.

Mas, a análise se torna mais interessante quando ele discute

o "homossexualismo psicológico", a partir de outro caso exposto em

carta. Trata-se de um trabalhador que, passando a freqüentar a casa

do amigo, estabelece uma relação íntima com sua esposa, de certo

modo, com sua própria conivência, já que cada vez mais o marido deixa

espaço livre para o amigo. Ao final, ele deixa sua esposa, enquanto o

outro busca explicação para o caso. Para o médico, trata-se de um

caso de "homossexualismo psicológico", propiciado pelo adultério, já

que estando vinculado à esposa, o marido consegue atrair outro homem

para dentro de sua casa e indireta ou simbolicamente relaciona-se com

este. Finalmente, algumas cartas colocam o problema de companheiros

fiéis, mas muito interessados pelas figuras femininas nas ocasiões

sociais. Ao que o Dr. Ibáñez define como erotomania, comportamento

doentio decorrente de um forte sentimento de inferioridade por parte

do homem.

"Negócios do aborto"

O tema da legalização do aborto se destaca como um dos mais

importantes na reforma eugênica promovida pela Revolução na figura do

Dr. Ibáñez, diretor geral do Sanidad e Asistencia Social da

Generalidad da Catalunha, ao lado de Federica Montseny, que se torna

Ministra da Saúde durante o governo de Largo Caballero. Em dezembro

de 1936, é estabelecido um decreto que permite a interrupção da

gravidez,

"seja qual for a causa que o motive, dando um golpe assim ao

curandeirismo assassino e dotando o proletariado de um modo

científico e eficaz de controlar sua natalidade, sem temor aos riscos

que ele poderia trazer..." (jan. 1937, n° 160)

Demonstrando o avanço da medida, já conhecida na Suíça, desde 1916,

na Checoslováquia, no Japão e na Rússia, durante os anos 20, o médico

anuncia sua adoção na Catalunha, enquanto uma das principais

conquistas revolucionárias para as mulheres. Condenando as medidas

repressivas do aborto que levavam ao infanticídio e à morte da mulher

proletária, afirma que deste modo

"o aborto salta da clandestinidade e incompetência em que foi

verificado até hoje, e adquire uma alta categoria biológica e social,

ao converter-se em instrumento eugênico ao servi;co do proletariado."

(n° 160)

Defendendo a importância da "reforma radical", o doutor mostra que

ela permitirá paradoxalmente diminuir a taxa de abortos, já que ao

lado dos centros destinados a ele, funcionarão outros destinados à

fusão popular de recursos anticoncepcionais,

"pois nosso ideal eugênico é que a mulher possua uma sólida cultura

eugênica, que lhe permita evitar o aborto e não recorrer a ele senão

como último recurso (...)".

Além disso, a reforma eugênica do aborto, tirando-o das mãos dos

charlatães e traficantes de remédios, permitirá reduzir a mortalidade

feminina por esta causa. Nesse sentido, ele entende que o projeto

valoriza a maternidade e consagra o direito da mulher ao seu próprio

corpo:

"Saudemos todos, irmãs e irmãos proletários, a reforma eugênica do

aborto desde a Consejería de Sanidad y Asistencia Social (...).

Liberadas sexualmente, as mulheres proletárias serão no futuro as

criadoras dessa nova geração de trabalhadores, prenúncios românticos

da nova era."

Ao fazer um balanço das criações revolucionárias da Consejería de

Sanidad y Asistencia Social, na Catalunha, nos meses em que a CNT

participa do Consejo de Gobierno, e elogiando fortemente a atuação de

Federica Montseny, o médico destaca: a descentralização da Sanidad e

a municipalização dos médicos; a constituição de conselhos locais e

da comarca, a criação de hospitais intermunicipais;

a "socialterapia", isto é, a reeducação dos doentes, asilados e

crianças em centros especiais:

"nossos estabelecimentos para crianças substituíram o regime

carcerário de antes pela vida livre em regime aberto, com o que o sol

que irrompe abundantemente nos estabelecimentos simboliza também a

luz que penetra nas velhas normas."

A defesa da "maternidade consciente" a exemplo do que ocorre na

Maternidad de las Corts, caminho para os centros da natalidade é

outro dos pontos destacados, assim como a instauração

dos "liberatórios da prostituição", casas de recolhimento das

mulheres. Vale notar a crítica às teorias "pseudocientíficas" do Dr.

Lombroso. Finalmente, o médico defende a criação de consultórios

psicossexuais de orientação juvenil e do Instituto de Ciências

Sexuais da Catalunha, onde seriam realizados estudos e pesquisas

sobre sexualidade.

Finalmente, os anarquistas se ocuparam da criação de espaços do

prazer sexual. É o que aparece no artigo "Uma Utopia Sexual",

publicado em janeiro de 1937.

"Uma Utopia Sexual"

O autor, Mariano Gallardo, inicia o artigo perguntando-se por que se

critica a busca de prazer sexual:

"Es que no es digna la satisfacción de los instintos sexuales?"

Critica a repressão sexual e afirma suas intenções:

"Precisamente o que aspiro com meus estudos sexuais é a criação de

uma ética sexual nova e livre, que torne desnecessária a

prostituição."

Para acabar com ela, propõe a criação de estabelecimentos sexuais

higiênicos, onde homens e mulheres acorreriam quando necessitados.

Ele imagina o "motel" de seus sonhos:

"Nesses estabelecimentos não haveria como população permanente senão

o pessoal médico e os encarregados do estabelecimento (...)."

O pessoal que o freqüentaria seria "movediço e transeunte", formado

por indivíduos de ambos os sexos,

"sãos e em idade de razão e de expansão voluptuosa."

Os médicos realizariam exames de prevenção e facilitariam o acesso

aos métodos contraceptivos. Haveria camas nos estabelecimentos e

outros objetos considerados necessários para o fim a que se destinam.

Finalmente, se viessem além de casais, homens e mulheres

desacompanhados, formar-se-iam dentro do estabelecimento,

"casais de amantes para um momento. (...) A mulher ou o homem que não

encontrassem ninguém de seu gosto, voltariam outro dia (...)"

Concluindo, Gallardo defende-se ante a possível crítica ao projeto,

observando estar comprovado que a necessidade sexual nem sempre está

unida ao amor e que a juventude não pode receber educação sexual sem

os meios para usufruí-la. Finalizando: entre fracassos e vitórias...

Os anarquistas foram vítimas de muitas críticas, sobretudo por parte

dos historiadores marxistas que, ao abrirem as portas para sua

entrada na memória histórica, condenaram-nos aos porões por

incapacidade política, romantismo ingênuo e esperança utópica, vale

dizer, impossível. Ao mesmo tempo, num momento marcado por esta

historiografia, para a qual os temas da sexualidade, do corpo, da

mulher não tinham a mesma importância que os temas políticos e

econômicos, o projeto de reforma moral e sexual dos libertários

certamente passava bastante despercebido ou desvalorizado enquanto

puro romantismo. Certamente, cada sociedade escolhe o passado que

quer celebrar e a partir de que registros pretende inventá-lo.

Contudo, algumas observações podem nos levar a refletir um pouco mais

de profundidade sobre o projeto social e moral libertário. Ao colocar-

se como um pensamento "de fora" e excêntrico, o anarquismo desloca o

foco de investimento estratégico do campo da política institucional

para o da moral, afirmando que a luta se volta contra todas as formas

de poder constitutivas das relações sociais e sexuais.

Para Malatesta, aliás, o anarquismo resulta da vontade pessoal e

coletiva, de um profundo amor pelo próximo dificilmente captado pelas

teorias científicas. Criticando violentamente as instituições, o

anarquismo dissolve os enquadramentos identitários que normatizam e

sedentarizam. A liberdade é, assim, ponto capital nesse pensamento

que rejeita a separação entre meios e fins. Nesse sentido, entende

que o amor e desejo escapam totalmente as codificações morais

instituídas pela sociedade burguesa desde o século 19. é claro que,

em se tratando de uma moral construída sobretudo nos meios operários,

os anarquistas enfrentaram enormes críticas e dificuldades e, aliás,

eles mesmos as enfrentaram com lucidez de sempre. Assim, discutindo o

amor livre, "tema delicado e difícil", uma das principais figuras do

anarquismo espanhol, Federica Montseny se pergunta em "A Mulher,

Problema do Homem" artigo publicado na Revista Blanca, em 1932:

"quem, até agora, colocou em prática o verdadeiro amor livre?"

que não seja apenas deixar de casar-se no religioso e no civil e

mesmo sabendo que

"o matrimônio é o túmulo do amor."

A relação entre os gêneros

"continua sendo a união subordinada de uma mulher a um homem, união

mais penosa, mais coatora da liberdade feminina, porque ao prescindir

da aprovação social, a deixa, na debilidade de sua desorientação e do

equívoco moral em que ambas as morais a colocam, mais à mercê do

carão" (pág.10)

O esforço para libertar-se do laço matrimonial

"a oferece temerosa e indefesa ao capricho masculino e ante a

animosidade familiar e social."

Sem falar

"desse outro amor livre, que consiste em provar mulheres, abandonando-

as ao cabo de dois meses com a insolência triunfante de sedutor.";

ou de uma forma disfarçada de prostituição que praticam algumas

mulheres, diz ela. E qual será o futuro do amor, pergunta, deixando

claro sua recusa do "comunismo amoroso", preconizado por Armand na

França. Também acha difícil responder, pois em cada indivíduo,

"o amor tem uma manifestação, uma variedade e um conceito.

"Montseny entende que a modernização da sociedade liberou a mulher do

domínio do patriarca para coloca-las nas fábricas e oficinas sob o

domínio do patrão. Sem modelos, passou-se da mulher francesa para o

tipo americano, em que

"o cabelo curto iguala as cabeças."

Desanimada, diz que não vê solução para o problema do dois sexos no

mundo em que vive, embora aponte

"o individualizamento do amor?"

como saída. E este exige uma nova mulher, mas também um novo homem.

Os anarquistas preparam o amor livre, criticando a prisão

representada pelo casamento monogâmico indissolúvel; defenderam o

divórcio; procuraram resolver o problema da prostituição

criando "liberatórios da prostituição", casas de recolhimento para as

mulheres desamparadas. Entenderam que deveria haver espaços especiais

para o sexo livre, entendido enquanto uma necessidade humana;

legalizaram o aborto, afirmando deste modo poder valorizar a

maternidade e deixa com que a mulher decidisse da livre opção pela

gravidez.

Muitas décadas depois, salta à vista o pioneirismo de suas propostas,

muitas das quais foram incorporadas e são hoje amplamente praticadas

em nossa sociedade, sobretudo nos setores sociais voltados à critica

do autoritarismo em suas práticas cotidianas. Outros pontos, a

exemplo do aborto e da prostituição, ainda são feridas abertas em

nosso mundo e as respostas oferecidas hoje ainda estão muito aquém do

patamar estabelecido por aqueles revolucionários nos anos 20 e 30. De

qualquer modo, as possibilidades históricas estão dadas e se tornam

cada vez mais conhecidas, permitindo ampliar o repertório de

respostas possíveis que nossa sociedade quer conhecer. Resta saber

que mundo, afinal, queremos.